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domingo, 8 de fevereiro de 2015

“Despreocupado, mas não Indiferente”


Erotique Voilée, 1933 by Man Ray

In 1933, Man Ray made a series of photographs using the artist Meret Oppenheim as a model. In this series, entitled Erotique Voilée, Oppenheim stands nude behind an enormous printing press wheel, her left arm, which is covered with ink, held up to her forehead. The left hand and arm are soiled and impure, but her gesture maintains an ambiguity between the warding off of further insults and a proud display of her stain. 

As a representation of a female artist in the role of a model, made by a male artist, Man Ray's photograph is at the center of a knot of considerations which entangle gender dynamics within Surrealism. In this enigmatic photograph, Oppenheim's eyes are downcast, half her face in the shadow of her ink-covered arm, which gestures palm out at the viewer. Around her neck is a simple black hoop that appears to be made of rubber or some similar material. Her pubic region is obscured by a blatantly phallic wooden handle which protrudes from the printer's wheel in front of her. 

The work is representative of the ongoing dynamic between men and women in Surrealism. 





Observo a mesma desconstrução na peça, talvez a mais emblemática de Ray, The Gift (1921), onde, ao ferro de engomar, objecto do quotidiano, representando o universo feminino, suave, se acrescentam algumas tachas (pequenos falos) na base, subvertendo a função do objecto, que se transforma em algo agressivo, masculinizado. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Anaïs Nin & Henry Miller

H,

Para ficar contigo por uma noite eu daria toda a minha vida, sacrificaria cem pessoas, deitaria fogo a Louveciennes, seria capaz de tudo. Isto não é para te preocupar, Henry, é só porque não consigo impedir-me de o dizer, que estou a transbordar, desesperadamente enamorada por ti como nunca estive por alguém. Mesmo que fosses embora amanhã de manhã, a ideia de estares a dormir na mesma casa teria sido um doce alívio do tormento que suporto esta noite, o tormento de ser cortada ao meio quando fechaste o portão atrás de ti. Henry, Henry, Henry, eu amo-te, amo-te, amo-te. 


Anais Nin, Carta a Henry Miller (1932)

Renam Christofoletti


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Fotografia: Catherine McNeil by Txeme Yeste


Txeme Yeste
Clique na foto, se quiser aumentar.



Leituras: O amante de Lady Chatterley #1

A nossa época é essencialmente trágica, e, por isso, recusamo-nos a vivê-la como tragédia. O cataclismo deu-se, estamos rodeados de ruínas, começamos a construir outras maneiras de viver, a alimentar novas pequenas esperanças. É uma tarefa difícil, já não há nenhuma estrada suave em direcção ao futuro: passamos ao lado dos obstáculos, ou saltamos-lhes em cima. Temos de viver para além de todos os céus que desabaram sobre as nossas cabeças.
Esta era, mais ou menos, a posição de Constance Chatterley. A guerra tinha sido como um tecto que lhe caísse em cima, e ela compreendera que seria necessário viver e aprender.
Tinha casado com Clifford Chatterley em 1917, durante o mês de licença que este passara em Inglaterra, mês esse que foi a sua lua-de-mel. Ele regressou à Flandres, de onde, seis meses mais tarde, voltava, mais ou menos em pedaços. Constance, mulher dele, tinha então vinte e três anos e ele vinte e nove.
O seu apego à vida era maravilhoso. Não morreu, e foi possível tornar a juntar os pedaços. Durante dois anos viveu nas mãos dos médicos, depois foi considerado curado e pôde voltar à vida. Mas metade do seu corpo, dos quadris para baixo, estava paralisada para sempre.

O amante de Lady Chatterley,  D. H. Lawrence


domingo, 1 de fevereiro de 2015

A female sexual predator / not Lolita

Review


"You have a great body," I told him. His build was the slender, undeveloped wiry sort whose tautness revealed the shadowy promise of muscles not yet arrived.

"I'm too skinny," he began, but I quickly placed one hand across his mouth to avoid further speech and with the other began rubbing across his chest and down his stomach, dipping a finger inside the elastic band of his shorts to stroke the starting delineation of his pubic hair. I felt his lips part beneath my hand to breathe more heavily; his eyes were traveling a vertical circuit from my crotch up to my breasts. "Have you ever taken off a girl's bra before?" He shook his head no. "They're mysterious little contraptions," I said, turning my back to him and raising the veil of my blond hair over my right shoulder to clear his view. "Go ahead and give it a try." His hands shook as he stumbled with the tiny metal hooks; he was nearly panting as he bent in closer to my back, struggling to see the bra's petite mechanics in the dark. I could smell the mint chewing gum on his breath—he'd indeed prepared himself for a make-out session. Could consent have been any more transparent? Eventually I felt the release of its pressure and Jack gave a victorious sigh.

"Bravo." I smiled at him from over my shoulder, then dropped the bra to the ground and turned back to face him bare-chested. "You've got me pretty worked up, Jack." His hands were down at his sides, bracing; he'd scooted back over to the right, as far away from me as the tiny backseat would allow. I got up on all fours and crawled over to him, my breasts hanging level with his face. "Feel how hard my nipples are." He started to reach out his hand but I pulled away and gave him a teasing smile. "Not with your fingers," I said, correcting him. "With your tongue."

Nodding, he scooted closer and stuck his tongue as far out from his lips as he could manage, as though he'd just been dared to lick a metal pole in the winter. His eyes were open wide, visually taking in the target—he seemed to be worried that he wouldn't be able to find my breast if he closed them. I lowered my head and watched the pink-on- pink contact, my nipple beginning to glisten with Jack's saliva. Dutifully, he fully wetted one, moved over and wetted the other, then sat back and looked up at me with eyes that awaited further instruction. "That felt perfect," I said encouragingly. "I knew you'd be really good at this." I sat down in front of him with my legs bent open; the thin lace string of the thong covered the tip of my clitoris but not much else. "Have you ever put your fingers inside a girl?"

Even in the dark I could make out the hot blush that was covering his cheeks. "I haven't done much," he said. The sound of his breathing suggested he was running away from something.

"Why is that?" I asked. "You're certainly good-looking." My hands wrapped around the jersey of his cloth-covered penis and began to stroke. He folded a leg up and sat on it, squirming with nervous energy as the speed of my fingers increased. Compliments seemed to freak him out more than relax him.

"I'm just shy with girls I guess," he said. I watched him swallow three times before speaking again. "I never know what to say."

I lifted my hands from the wad of fabric swirled up around the shape of his erection and found the panel opening of the crotch, then slowly moved it down to reveal his penis. Lowering my head so my hair fell across it, I spoke just above it like it was a microphone. "You can relax, Jack," I said, bathing its tip in my warm breath. "You don't have to say anything." With that, I licked my lips, then slid them down over him, slowly arching my neck and extending my throat until my mouth came to the base. He made a gasping noise and bucked a little, writhing in a disoriented way that bumped the head of his cock against the roof of my mouth. I gave him a quick thirty seconds of advanced sucking, my tongue fluttering against his underside until I could taste the salty bitters of pre-ejaculate, then sat back up and wiped my mouth off on my arm.







quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Leituras: O Elogio da Mulher Madura #3


Klári ficou porque devia jantar connosco; eu, porém, não pude deixar de pensar por que razão ele se sentia «demasiado cansada» para acompanhar Maya e porque preferiu esperar comigo no apartamento, sabendo nós que a Maya ainda se iria demorar uma hora mais.
 - Bem, estás à minha guarda - disse ela com uma gargalhada embaraçada -; o que é que eu hei-de fazer contigo agora?
Não fora só a gargalhada que fizera o seu corpo vibrar; eu vi a expressão do seu rosto suavizar-se e descontrolar-se mais uma vez. Fico irresistivelmente atraído pela expressão nua de uma mulher quando está completamente vestida. E Klári perguntava-me o que haveria de fazer comigo.
 - Seduz-me.
Ela ficou séria. - Estou espantada contigo, András.
 - Bem, perguntaste o que havias de fazer comigo.
 - Estava apenas a tentar ter uma conversa amável.
 - E o que haverá de mais amável do que pedir-te que me seduzas?
[...]
Quando fizemos amor, não tivemos que nos mexer. O corpo dela era sacudido, do principio ao fim, por convulsões. Talvez porque não queríamos realmente estar de novo juntos (ela achava-me imoral, eu achava-a estúpida), esses poucos minutos provocaram a violenta sensação de estarmos a viver um primeiro e derradeiro encontro.


O Elogio da Mulher Madura, Stephen Vizinczey - Editorial Presença, [p. 62 - 63]



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

As putas da Avenida


Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


Fernando Assis Pacheco


Fotografia: Dioni Tabbers














domingo, 4 de janeiro de 2015

Vidas #2 (2)


[continuação]



Foi numa quinta-feira, pouco antes do Natal. O marido tinha ido ao Porto, juntamente com dois colaboradores, apresentar um projecto importante a uns investidores espanhóis. Não estaria em casa antes da meia-noite, como era hábito nessas ocasiões, mas ela não queria correr riscos desnecessários e decidiu como hora limite as dez da noite.
Passou o dia bem-disposta. Entre olhares e sorrisos cúmplices com o amante, trocou alguns telefonemas com o marido, sempre num tom carinhoso, coisa que já não fazia há muito tempo. Incentivava-o que ia correr tudo bem, que os espanhóis não eram loucos para não investirem naquele projecto, que o Filipinho tinha almoçado bem, já tinha ligado à mãe, e agora estava a dormir, e um beijinho e até logo. Ciente do seu espantoso sangue-frio, tinha encaixado a pergunta normalmente, o que te apetece para o jantar? ele hesitou e disse que o melhor era não contar com ele, em princípio, iria jantar pelo Porto. Touché! O que ela queria ouvir. Aventurou-se à proposta do Motel na estrada de Sintra, levantando o polegar ao olhar que a inquiria, duas mesas à sua esquerda, ainda o marido falava do trânsito infernal da A1, naquela manhã, uma gaja qualquer que tinha provocado um choque em cadeia, dizia em tom de desdém. 
No momento em que agarrou na bolsa e no casaco, já tinha ligado à mãe a dizer que ia chegar mais tarde, apetecia-lhe ir ao ginásio, mentiu, ainda se questionou se não seria melhor desistir, e se ele viesse mais cedo? as coisas já andavam tão tremidas... bem, podia sempre desculpar-se com o ginásio. O som de um sms dissipou-lhe os pensamentos, Estou a ir para lá, minha putinha. Até já. Estremeceu, numa onda invisível, as palavras, grossas como um pénis que lhe latejava na boca, apoderaram-se do baixo ventre. O clitóris intumesceu, como se dentro de si bombeasse um coração gigante. Os mamilos, ainda doridos da dentada que ele lhe tinha dado à hora de almoço, enrijeceram, novamente em busca daquela boca sôfrega de prazer. A decisão estava tomada.



[cont.]

sábado, 3 de janeiro de 2015

Fotografia: Manon Couse

[...]
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
[...]


Manon Couse





sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Fotografia: Hannes Caspar



The challenge is always to create something which tells a little story or shows a little idea. No matter if it is erotic or not.

Hannes Caspar






segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Fotografia: Stephen Lewis









Kristine Zandmane by Stephen Lewis for Lui December January 2015


Leituras: O Elogio da Mulher Madura #2


Durante todo este tempo permaneci um proxeneta virgem. Havia umas quantas prostitutas bonitas e amáveis que pareciam gostar de mim, mas eu não fazia a menor ideia de como me declarar. Fixando-as nos olhos da maneira mais suplicante que era capaz, esperava que alguma delas tivesse a ideia de me convidar. Mas nunca o fizeram. E, apesar de desejar tanto fazer amor, que com frequência era acometido por terríveis cãibras, os efeitos de tristeza do pós-acto a despachar começavam a intimidar-me. Reparei que os soldados, que se arranjavam com quem quer que estivesse disponível, mal olhando sequer para a mulher em causa, ficavam depois, frequentemente, taciturnos ou mesmo zangados. E enquanto a minha adorada condessa costumava separar-se do seu jovem capitão com uma expressão de júbilo, saía dos aposentos dos outros oficiais com um ar gelado. O que quer que o sexo fosse para além disso, era obviamente um trabalho de equipa e comecei a suspeitar que estranhos, mais ou menos empurrados à força para os braços um do outro, raramente formavam uma boa equipa.
A mulher que melhor me ensinou esta lição foi a Fräulein Mozart.


O Elogio da Mulher Madura, Stephen Vizinczey - Editorial Presença, [p. 31 - 32]



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vidas #2

Tempos houve, em que os seus lábios tremiam de excitação, perante aquela boca travessa, que lhe sorria sempre que os olhos se cruzavam. 
Tinha comemorado os quatro anos de casamento em Maio; no berço, como esperado, dormia um pequeno Filipe, filho desejado, neto (único) adorado. Não se podia queixar da vida que levava, um marido que a mimava, dono de uma bonita conta bancária e que nunca se lhe negava a nenhum dos seus caprichos. Férias na Grécia, closet recheado, carro novo alemão. A vida tinha-se organizado, melhor ainda do que havia sonhado. Tinha sido o marido também, quem lhe tinha arranjado o emprego, numa das empresas sua cliente. De mera secretária de administração, passou a directora dos recursos humanos. Estava radiante. Sabia o efeito que produzia nos homens. Cabelos loiros, sempre cuidados, roupa atrevida, mas de boa qualidade, sapatos altos, nem que fosse para levar o cão a mijar. Mais de metade do trabalho, estava feito, depois bastava sorrir, ouvir sempre com atenção e  finalizar concordando. Julgou, por isso, que o sentimento que a unia ao marido fosse coisa para durar, interesses comuns, base sólida que não valia a pena lascar por algum engate com colaboradores ou paquetes de entregas. Continuava a flirtar-lhes os biceps e o fecho das calças, enquanto molhava os lábios sequiosos, se algum lhe alterava a respiração, mas segurava a ponta, pensando na boa vida que não queria perder, o salário acima dos dois mil e quinhentos, que ainda lhe parecia mentira.
Por tudo isso, não entendia como podia sentir-se tão cativa daquele homem. Presa por um olhar que tanto lhe prometia prazeres incalculáveis, quanto a desprezava simpaticamente, algo a que não estava habituada. Da excitação inicial, passou à total submissão e entrega. Inventava mil desculpas, para sair mais tarde, mil relatórios, para trabalhar aos sábados, mil reuniões no Porto, para dormir fora. Culpava-se pelo bebé, que a sua mãe cuidava, fazendo as suas vezes, arriscava nas mentiras, mas não conseguia parar. Habituada a vencer, aquela relação tomava-a com uma febre, roubava-lhe o discernimento, e, no escritório, os murmúrios aumentavam de tom. De dia para dia, aumentavam as piadas à sua passagem pelas secretárias.  Em casa, o clima era tenso. Vivia num medo permanente. Mantinha o telemóvel sem som, escondido no bolso, limpava o histórico do portátil, com uma precisão compulsiva. A muito custo se retraia, para não voltar ao vicio antigo de fumar. O marido, dirigia-lhe cada vez menos a palavra e sempre que a olhava, o rosto gelava. O mundo perfeito desmoronava-se. 

[cont.]